Autor: Luís Santos

Legacy Systems

De acordo com o Instituto de Formação e Emprego de Portugal (IEFP), o teletrabalho é uma modalidade de trabalho com três importantes características: distância, sendo que o trabalhador se encontra num ponto geográfico distinto daquele em que o trabalho é entregue; tecnologia, com recurso a meios informáticos e de telecomunicações; e estruturação, através dum acordo ou contrato claro entre os intervenientes que regula as condições em que se desenvolve a atividade. Apesar de prós e contras para as partes envolvidas, continua a ser um conceito pouco difundido e pouco aceite em Portugal, devido ao conservadorismo na forma como é encarado. Procurando entender, desmistificar e propor soluções irei, então, aprofundar a questão nas suas componentes.

Começo pelas vantagens e, de entre elas, as que favorecem o trabalhador. Estando em casa, existe logo uma redução significativa das deslocações e, com isso, uma diminuição de gastos e do stress relacionado. Mais: estando em casa, poupa-se também nas refeições e faz-se uma melhor gestão do tempo e do ritmo de trabalho. Há maior harmonização entre a vida familiar e a vida profissional. Por outro lado, com valências na área do teletrabalho aumentam também as perspetivas laborais, aumentando o leque de ofertas a que se pode candidatar. Tudo somado, temos um aumento significativo da qualidade de vida. Mas também as empresas têm a lucrar com esta situação, especialmente em termos de produtividade e de redução de custos: um trabalhador motivado e que não tem necessidade de um posto de trabalho fixo é garantia disso. Não consome recursos. E também não suja. Esta ausência permite uma melhor gestão dos fluxos de trabalho e reduz as burocracias inerentes. Por outro lado, em caso de catástrofes naturais, greves e outras perturbações, o seu impacto negativo na empresa é mitigado. E, por falar em Natureza, também ela pode sair beneficiada com a redução das deslocações e consequente impacto ambiental, pese embora os trabalhadores que exerçam neste regime sejam passíveis de proceder a outras deslocações em horários que, habitualmente, seriam de trabalho. Um outro efeito secundário do teletrabalho é a promoção do desenvolvimento regional pois, ao descentralizar o trabalho, permite criar emprego em áreas que normalmente apresentem obstáculos à sua criação.

Mas existem, também, desvantagens na implementação do teletrabalho. O trabalhador neste regime pode ver-se isolado da empresa e dos colegas, podendo mesmo correr o risco de vir a ser negligenciado em alturas de promoções, formações ou mesmo de plano de carreira e, em última instância, a ser marginalizado pelos colegas em regime de trabalho tradicional. A concentração e dedicação do trabalhador podem ser afetadas pela existência de crianças em casa ou de familiares que necessitem de apoio exigente. A própria disponibilidade do trabalhador através do computador, telemóvel e outros meios de comunicação pode levar a um descontrolo do ritmo de trabalho, colocando-o sob pressão. Esta situação pode causar distúrbios comportamentais e doenças relacionadas com o stress. Já para as empresas, os maiores problemas estão relacionados com a mentalidade e o conservadorismo com que é encarado o trabalho. O facto de não contar com a presença do trabalhador é lido como uma perda de controlo sobre este, já que um dos principais indicadores de desempenho tende a ser, erradamente, a presença física e o cumprimento dos horários de trabalho. A própria avaliação do trabalhador vai ressentir-se por esse mesmo motivo. Esta resistência à mudança, aliada ao conservadorismo latente, são os piores entraves à instituição do teletrabalho em Portugal, mas existem outros: o investimento em tecnologias e equipamentos necessários à atividade e os riscos de segurança e confidencialidade. De essência técnica estes são, ainda assim, problemas solucionáveis de forma mais ou menos descomplicada, ainda que investimentos sejam, nos dias que correm, assuntos revestidos de alguma delicadeza.

Como poderíamos, então, capitalizar as vantagens do teletrabalho mantendo, ao mesmo tempo, as suas desvantagens em cheque?

Um dos principais problemas para o empregador é a ideia de falta de controlo sobre o trabalhador, dada a ausência física deste. Para o trabalhador, o principal problema é o afastamento dos colegas. Ambos os problemas têm origem na ausência física do trabalhador do local de trabalho. A solução mais lógica passaria por um modelo misto: o trabalho seria desenvolvido remotamente, mas a presença do trabalhador seria requerida em situações concretas. Por outro lado, a proliferação da filosofia “BYOD” (Bring Your Own Device) permite outro tipo de agilidade, técnica e financeira, ao permitir que os trabalhadores usem os seus portáteis, tablets e smartphones para suportar o seu trabalho com um custo mais reduzido para o empregador, ainda que com maior desafio para os serviços de informação da empresa. Também os modelos de avaliação vigentes em muitas empresas teriam que se adaptar a este paradigma do trabalho. Desta forma, manter-se-iam a maioria das vantagens do modelo de teletrabalho.

Os únicos problemas que persistiriam, ainda que com soluções técnicas possíveis, seriam aqueles relacionados com a confidencialidade da informação. Mas o mais difícil é haver alteração das mentalidades para combater esta resistência à mudança.

Publicado a 25-02-2016 no in.RH

http://www.rhonline.pt/artigos/2016/02/25/teletrabalho-uma-solucao/